Publicado hoje, 13 de março de 2008, no Correio Braziliense
No dia 26 de fevereiro, José Luis Rodríguez Zapatero, Primeiro Ministro da Espanha, e Mariano Rajoy, líder do direitista PP, tiveram um debate. A uma distância de milhares de quilômetros, brasileiros – turistas, estudantes e emigrantes disfarçados – não sabiam que aquele debate era parte de um processo maior e mais antigo que afetaria seu destino.
No debate, Rajoy acusou Zapatero de erros graves na sua política migratória: “somos o segundo país do mundo em termos de entrada de estrangeiros: isso é uma avalanche”. Os países europeus, em geral, desenvolveram uma atitude nada condescendeste em relação a imigrantes do Terceiro Mundo, que se acentuou depois de atentados terroristas dentro e fora da Europa. Islâmicos marroquinos mataram duas centenas de pessoas e feriram mil e quatrocentas nos ataques de 11 de março de 2004 na Espanha. Zapatero está no poder porque o então Primeiro-Ministro José Maria Aznar tentou culpar um grupo basco separatista, ETA, ocultando o fracasso da prevenção em relação a ataques de terroristas islâmicos. O tema deu muitas viradas e agora voltou, mas na forma de acusações da direita, do PP, o mesmo partido de Aznar.
Porém, a teia de circunstâncias que prejudicou tantos brasileiros, inclusive dois alunos do IUPERJ, já chegou multiplicada pelos ataques de 11 de setembro de 2001. Após aquela data, os Estados Unidos adotaram uma política muito restritiva de vistos e uma política bem mais dura em relação a imigrantes ilegais. Em verdade, as deportações em massa começaram antes e foram estimuladas pelo sucesso de gangues de jovens delinqüentes, inicialmente, salvadorenhos. Essas gangues se internacionalizaram e receberam nome, maras, se tornando um objeto legítimo de pesquisa e estudos em criminologia. Em forma embrionária, existem em vários países, inclusive na Espanha. Esses acontecimentos redirecionaram muitos emigrantes ilegais brasileiros para a Europa. Afirma-se que, somente na Grã-Bretanha, vivem ilegalmente 200 mil brasileiros. A “onda de brasileiros” redirecionada para a Europa reclassificou nossa cidadania como suspeita.
O terrorismo contribuiu para o crescimento do medo, que reduz a capacidade analítica, inclusive de diferenciar entre tipos de alteridade. Todos os diferentes de nós são iguais entre si. Os ataques às Torres Gêmeas, a Bali, ao metrô de Londres e a Atocha, assim como a divulgação de vários outros que foram desmantelados, geraram muita insegurança, exatamente num momento em que a Europa ampliava suas fronteiras, sem barreiras internas. Embora o medo seja maior nos países onde há muitos muçulmanos, os cidadãos de outros países também foram afetados. O medo ampliou seu território. Até pessoas com uma atuação de esquerda, mundialmente conhecidas, adotaram posições nacionalistas e até xenófobas. Oriana Fallaci, escritora italiana, é um caso emblemático: com um passado de militância esquerdista. Foi namorada de Alekos Panagoulis, líder da oposição ao regime militar grego, que fez uma reportagem contundente sobre o massacre de Nonoalco-Tlatelolco, onde foi ferida em 1968, e fez inúmeras entrevistas duras e agressivas com líderes ocidentais conservadores. Não obstante, Fallaci viu na imigração, particularmente de muçulmanos, a descaracterização da Europa. Na casa dos 70, e com câncer, levou o seu caráter guerreiro contra o Islã: “A Europa não é mais a Europa, é Eurábia, uma colônia do Islã”. Fez coro com Samuel Huntington, seu tradicional oponente na dimensão esquerda-direita, que afirma haver um “conflito de civilizações”. Ambos ignoram os argumentos muito bem ponderados de Edward Said, falecido há poucos anos, e colocam o Islã e os grupos terroristas no mesmo saco. Perderam a capacidade de diferenciar.
Essa é a matriz do medo. Essa é a matriz para interpretar o absurdo de Barajas. Nessa hostilidade reativa ao Islã e à imigração de muçulmanos, a uma Europa que se sente invadida, onde fica a América Latina? Num momento de alta rejeição ao diferente, é parcialmente fundida com outros países do Terceiro Mundo, inclusive do Magreb. Farinha do mesmo saco.
Não foi um fenômeno individual, de um policial. Os maus tratos e abusos que nossos cidadãos sofreram nas mãos de diferentes policiais sugerem que não há, entre os policiais, medo de sanção de parte dos seus superiores. Se errarem, não há conseqüências, o que revela que não há uma política de preservação da dignidade de quem cai na malha da suspeição. Entramos na categoria de pessoas com as quais é legítimo ser intolerante. Um grão de tolerância e dois telefonemas revelariam a condição de estudantes de pós-graduação e de sua participação num congresso.
É, portanto, importante não ver o acontecido em Barajas nem como um epifenômeno, um acontecimento isolado, nem como uma peculiaridade do governo espanhol, nem como um problema com brasileiros. É muito mais amplo.