As notícias sobre o declínio – e até o colapso – dos Estados Unidos provocam alguns pensamentos. Não é a primeira vez que se coloca o fim da hegemonia americana em pauta. Parte importante do problema deriva de tomarmos o fim da IIª Guerra Mundial como ponto de partida. Foi o ponto mais alto, quando os Estados Unidos chegaram a ser responsáveis por mais de metade da produção industrial mundial. Esse ponto de partida foi “naturalizado” e se tornou uma referência habitual. Porém, foi um momento artificial, no qual os principais concorrentes dos Estados Unidos – Alemanha, França, Grã-Bretanha, Japão e a então União Soviética – sofreram pesada destruição física. Houve um excepcionalismo daquele momento. Parte da saliência americana derivou da ausência de competidores no pós-guerra.
Como esperado, houve um crescimento das economias desses paises, mais acelerado em uns casos, menos em outros, que reduziram, sem eliminar, a preponderância dos Estados Unidos.
Não obstante, o declínio relativo dos Estados Unidos provocou um choque de idéias. Uma de suas variantes estava associada, ironicamente, ao custo da guerra e da própria hegemonia. Em 1987, o assunto voltou à ribalta. O historiador Paul Kennedy publicou The Rise and Fall of the Great Powers: Economic Change and Military Conflict from 1500 to 2000 que provocou celeuma. Nele, defendia a tese da “overextension”: paises “hegemônicos”, tenderiam a ampliar territórios e áreas de influência, assumindo compromissos, sobretudo militares, que terminariam conspirando contra sua própria hegemonia, sobretudo econômica. Esticando o argumento, alguns adeptos de Kennedy postularam que os Estados Unidos não deveriam ter participado tão intensamente da Guerra Fria, deixando que o expansionismo da União Soviética a levasse à autodestruição. Claro, a direita americana definiu Paul Kennedy como “liberal” que, no linguajar político americano, significa esquerdista. A direita argumentou, também, que a corrida armamentista foi feita para quebrar o gladiador economicamente mais fraco, a União Soviética. Dois anos depois da publicação do livro de Kennedy, Francis Fukuyama publicou um artigo, “The End of History” (The National Interest, Summer 1989) que representava a resposta do ufanismo americano, em tom nada moderado, após o colapso político da União Soviética. Fukuyama, é bom lembrar, era um alto funcionário do Departamento de Estado e tinha sido analista da conservadora RAND Corporation. Ironicamente, a esquerda e a direita não concederam um estatuto essencial à artificialidade do pós-guerra como ponto de partida para comparações.
Desde o pós-guerra, muito tem sido escrito e dito sobre esse ou aquele “milagre”. Alguns interpretaram cada milagre como um desafio, uma ameaça, à hegemonia americana. Um dos primeiros foi o “milagre alemão”. A Alemanha teve duas excelentes décadas, chegando a crescer perto de dez por cento em alguns anos. Mas o milagre acabou há muito tempo e o crescimento econômico alemão anda próximo aos 2% anuais. Enquanto o milagre alemão esmaecia, surgia o japonês. Em 1965, o PIB nominal do Japão era de 91 bilhões de dólares. O Japão cresceu tão rapidamente que 15 anos mais tarde ultrapassou um trilhão. Passamos a falar no “milagre japonês” e o Japão passou a ser visto como o país competidor dos Estados Unidos, talvez a potência hegemônica do futuro. O perigo, então, eram os Toyotas, os Hondas, a Sony etc. Livros foram escritos, inclusive sobre a melhor administração das empresas japonesas, e políticas foram alteradas. Clinton, em discurso e ação, reorientou a economia americana, abandonando o rust belt, industrial, e apoiando a política do Silicon Valley, de serviços muito qualificados. Industrialmente, não dava para competir com os japoneses. Deu certo, e os Estados Unidos voltaram a crescer.
E o Japão? A década de 90 foi chamada de “a década perdida”, a partir dela, a economia japonesa parou de crescer rapidamente, chegando a estagnar. Mais um milagre chegava ao fim.
Os milagres da vez são o chinês e o indiano. As expectativas são semelhantes: vão durar e comprometer a liderança econômica americana. Porém, os dados sobre outros milagres são mais pessimistas e levam a conclusões mais prudentes. Os milagres são curvos e as taxas médias do crescimento do PIB são mais altas nas primeiras décadas, decaindo depois.
O Terceiro Milênio confirmou um novo panorama, com um número maior de atores economicamente significantes. A concentração é menor e o panorama mais diversificado. A preponderância de um ou outro país passou a ter parâmetros mais modestos e o conceito de hegemonia econômica perdeu muito do seu charme.
A esquerda afirma que o imperialismo americano vive do complexo militar, que o país precisa gastar para a economia funcionar, ao passo que a direita afirma que a segurança militar é condição para o crescimento econômico. É um discurso conhecido dos brasileiros, repetido ad nauseam para justificar a ditadura militar. Ironicamente, em tempos recentes, a economia americana subiu e desceu com as políticas de seus presidentes, mas na direção oposta à prevista pela extrema esquerda e pela extrema direita, recuperando a credibilidade da tese de Paul Kennedy. Clinton reduziu os gastos militares, o que lhe permitiu equilibrar o orçamento e reduzir o déficit fiscal. Em seus dois mandatos houve prosperidade e, mais importante, estabilidade, com as associadas reduções no desemprego, na violência e na criminalidade. Porém, essas políticas, e suas conseqüências benéficas, foram substituídas por políticas econômicas e sociais regressivas e um retorno ao militarismo. As guerras do Afeganistão e do Iraque e os cortes de impostos dos mais ricos devastaram a economia americana. Se os ataques de onze de setembro justificaram a primeira, a segunda permanece sem qualquer justificativa a despeito de incalculável custo humano. Os Estados Unidos pagaram um alto preço econômico e financeiro pelo desvario dos anos Bush Jr. Em 2007, os Estados Unidos respondiam por menos de 30% do PIB mundial.
Os Estados Unidos, hoje, vivem a contradição de sofrerem a crise econômica e financeira mais séria em oito décadas e serem uma potência militarmente hegemônica. Não há país que se aproxime: os gastos militares americanos correspondem a cerca de 45% do total (dados de 2007, do SIPRI), seguidos, de longe, pela Grã Bretanha, China, França e Japão, com perto de 5% cada. A disparidade é muito grande: os Estados Unidos gastam nove vezes mais com o segundo colocado.
O medo de muitos é que a próxima administração americana ceda à tentação da solução de força e tente resolver militarmente a crise econômica e financeira. Os Estados Unidos afundarão mais, levando junto a paz mundial e muitos povos.
A disparidade é muito grande: os Estados Unidos gastam nove vezes mais do que o segundo colocado.
O medo de muitos é que a próxima administração americana tente resolver militarmente a crise econômica e financeira. Os Estados Unidos afundarão mais, levando junto a paz mundial e muitos povos.
Publicado no Mais, Folha de São Paulo, 21/09/2008. Revisto pelo autor.
Tags: Bush, Clinton, futuro dos Estados Unidos, guerras do Afeganistão e do Iraque, guerras e prosperidade, Hegemonia americana, imperialismo

