Posts de Julho, 2009

Variações no Crime em São Paulo

Julho 31, 2009

Há duas semanas, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo tornou públicos os dados sobre a criminalidade no último trimestre. É um ato corriqueiro em paises com transparência e tem sido umcomportamento contínuo no Estado de São Paulo há muitos anos. Mas, para vergonha nossa, ainda há estados no país que não divulgam os dados, há os que os maquilam e adulteram, ou os publicam com muito atraso.

Os dados divulgados talvez não causassem reação não fosse São Paulo o único estado brasileiro a exibir bons resultados há muito
tempo: os homicídios vêm baixando há 29 trimestres e São Paulo é, hoje, uma referência internacional no controle da violência, juntamente com Nova Iorque, Bogotá, Medellín e alguns outros lugares. Ocupa, no Brasil, uma posição invejável. Há debates e discordância sobre o as causas dessa redução, mas não a respeito da sua existência.

O estado foi administrado pelo PSDB desde Mario Covas o que introduz uma dimensão político-partidária. Evidentemente, políticos e
simpatizantes afiliados a outros partidos se sentem incômodos com o contraste entre o êxito paulista e o fracasso em tantos estados com governadores de seus partidos.

Os resultados recém divulgados não foram tão bons quanto os anteriores. Os criminólogos olham para isso com tranqüilidade; porém
alguns políticos, inclusive jornalistas comprometidos politicamente, sem familiaridade com os dados criminais, expressaram sua alegria.

O que houve? Os homicídios cresceram 0,7% no Estado, porém na capital e na Grande São Paulo caíram 6%, uma queda considerável. Mesmo computando o pequeno aumento, a taxa paulista é, de longe, a mais baixa do país. Se os dados seguintes indicarem a mesma tendência à estagnação, muda a forma do fenômeno, que já é conhecida. Chegaram a um plateau.

O que é isso? Algo que acontece com quase todas as políticas públicas bem sucedidas: chegaram ao limite, até onde poderiam chegar.
Aconteceu com muitas legislações e com as políticas públicas que se originaram nelas. A “antiga” Lei do Trânsito reduziu as mortes durante quase duas décadas, mas passou a provocar reduções cada vez menores. Alguns chamam isso de efeito-chão (não dá para baixar mais) que, visto positivamente, é um efeito-teto. Os efeitos desse tipo não indicam que chegamos ao limite do possível; indicam que chegamos ao limite dessas políticas. A “nova” Lei do Trânsito provocou uma redução substancial de mais de quatro mil mortes (vidas salvas) só no seu primeiro ano. Infelizmente, a implementação das mesmas medidas ficou cada vez mais desleixadas e as
mortes no trânsito voltaram a aumentar.

É importante saber que, quando há um grande crescimento ou uma grande redução, a composição dos homicídios se altera.Vítimas e assassinos não são os mesmos quando as taxas são altas e quando são baixas. Os homicídios não são todos iguais; há tipos muito diferentes – difere a vítima, difere o autor, difere a relação entre eles, difere a arma, difere o local da ocorrência e muito mais. No Brasil das últimas décadas, o crescimento dos homicídios tem uma vinculação íntima com o tráfico de drogas e de armas e com o crime organizado (sem colocar o grau de “organização” dos traficantes num nível empresarial). Quando há explosões de homicídios, as taxas de crescimento das mortes masculinas é substancialmente mais alta do que a das femininas. Quando houve redução rápida, ela foi maior entre os homens. As políticas públicas aconselhadas para paises com altas taxas de homicídio são claramente diferentes das aconselhadas para países com baixas taxas. Quando o êxito das políticas anteriores tem rendimentos decrescentes significa que há necessidade de novas políticas, assim como de aperfeiçoamento das anteriores. Reduzidos os homicídios relacionados com o tráfico,
cresce a significação relative dos homicídios entre íntimos. Porém, a  prevenção de homicídios entre íntimos difere muito da prevenção de homicídios associados ao tráfico etc.

Dados de crimes diferentes não têm a mesma fidedignidade, nem o mesmo peso, daí a dificuldade em construir índices de criminalidade – nos mais simples, que simplesmente somam os crimes, o furto de um celular pesa tanto quanto um homicídio, um absurdo. As pesquisas de vitimização mostram que a sub-enumeração de alguns crimes é de tal magnitude que desfigura os dados. Um “crescimento” pode não significar um crescimento do crime, mas da confiança nas instituições. Há perigosos viéses seletivos: escolher os que mais cresceram para desacreditar a política ou os que mais caíram para mostrar seus méritos. Um dos artigos publicados mostra um crescimento de 36% nos latrocínios, sem informar que os latrocínios representam uma percentagem pequena do total de
mortes violentas intencionais. Naquele trimestre houve 94 latrocínios, em contraste com 1001 homicídios culposos no trânsito, e 1207 vitimas de homicídios intencionais. A redução nos homicídios culposos no trânsito foi maior que a totalidade dos latrocínios no trimestre…

Outro dado importante tem a ver com a distribuição geográfica dos crimes com estatísticas confiáveis. Há muita variação entre as taxas dos municípios e das regiões paulistas, sugerindo fenômenos mais localizados que requerem atenção concentrada: algo diferente está acontecendo nessas áreas.

Precisamos melhorar a qualidade dos dados e reduzir a sub-enumeração dos  crimes. Enquanto isso não acontece, temos que trabalhar com os mais confiáveis: os que deixam cadáveres, assim como furtos e roubos de veículos, dada a obrigatoriedade do registro para
obter o seguro. E o leitor deve se informar para poder ler criticamente o que publica e não
aceitar como verdade o que é chute ou opinião.

Gláucio Ary Dillon Soares

Publicado no Correio Braziliense

Estresse e estressores

Julho 13, 2009

Acabo de receber um relatório resumido sobre o estresse da Harvard Medical School. Façamos um experimento: pense em cinco pessoas estressadas diferentes que você conhece, mas não das mesmas situações. Escolha gente da família, do trabalho ou da escola, entre os amigos, vizinhos etc. Faça uma lista para cada pessoa do que é que estressa. Pode perguntar. Acredito que a lista incluirá vários fatores que não são os mesmos para as pessoas. Eu mesmo fiz esse experimento e a lista é grande: um tem problemas com a saúde e desilusão com os colegas; outro tem diabete e problemas sérios com a esposa; outra tem problemas com o marido que bebe; outra tem problema porque os pais (e a família) não aceitam o namorado que foi casado com uma amiga da família; além disso, não se sente feliz na profissão; outra também tem problemas com o marido que bebe e a trai – e assim por diante. Esses fatores que provocam estresse são chamados de estressores e podem ser muito variados.
O estresse passa pela bioquímica do corpo. Sabemos isso há muito tempo, pelo menos desde um experimento feito por um fisiólogo chamado Walter Cannon. O que Cannon fez? Estressou um grupo de gatos, que estavam presos em jaulas (e protegidos dentro delas), colocando cachorros agressivos do lado de fora. Depois examinou os hormônios produzidos pelas glândulas adrenais dos gatos e isolou um que, quando injetados em outros gatos que não tinham sido estressados provocavam reações semelhantes. O que aconteceu com esses gatos? A pressão sanguínea aumentou muito, os batimentos cardíacos também dispararam, houve aumento das células brancas no cérebro e os gatos demonstraram reações que foram chamadas de “fright, fight or flight“. Medo, Luta ou Fuga.  O experimento provou que o estresse passa pelo sistema bioquímico e pela produção de alguns hormônios no caminho que provoca as reações observadas de Medo, Luta ou Fuga.
Outros experimentos demonstraram que os estressores são muitos e de vários tipos, alguns envolvendo atividades consideradas boas como o casamento ou a volta, através da conciliação, ao esposo(a) ou namorado(a), o nascimento de um filho ou filha etc. Muito estresse pode causar problemas de saúde, alguns sérios como úlceras, insônia, problemas cardíacos etc.
Os estressores não são todos iguais: uns estressam mais e outros menos. O que estressa mais e o que estressa menos variam de pessoa para pessoa e de cultura para cultura, assim como algumas das medidas para lidar com eles (ainda que outros não variem). Deus querendo, voltarei a tratar do tema.