Esperança, sim; molécula milagrosa, não!
Uma pesquisa em andamento na University of Pennsylvania gerou entusiasmo, polêmica e apreensão na imprensa de divulgação médica. O relatório publicado nos Proceedings of the National Academy of Science por Zhang e sua equipe causou impacto. Infelizmente, como no caso da abiraterona, as análises não foram sóbrias e realistas. O MailOnline falou de supermolécula; em outros meios expressões como molécula maravilhosa etc. foram usadas para descrever o que Zhang pesquisou. Seria ótimo se fosse assim. Infelizmente, há uma grande diferença entre o ôba-ôba de parte da mídia e a realidade da ciência.
Qual a realidade? A molécula F77, um anticorpo, gruda na superfície das células de câncer da próstata, tanto as que são ainda dependentes de andrógenos quanto as que já não o são. Ela grudou nas células cancerosas em 97% dos casos em que o câncer em questão era da próstata e em 85% do tecido para o qual o câncer da próstata tinha metastizado. Isso torna a célula cancerosa mais fácil de atacar e destruir.
Qual o problema? Esses resultados foram obtidos com camundongos onde cânceres humanos da próstata foram criados artificialmente. Infelizmente, são poucos os remédios que passam dessa fase, da Fase II e chegam a clinical trials decisivos, Fase III. Uma estimativa, que cito sem convicção, é de que uma em cinco mil chega lá.
O potencial é, pelo menos, duplo: torna mais fácil identificar o câncer e o transforma num alvo à parte das células sãs.
Porém falta muito, muito. Um artigo estima em cinco anos, no mínimo, até chegar ao nível de clinical trials , Fase III. O mesmo artigo comenta que a ciência tem fracassado no desenvolvimento de anticorpos monoclonais dirigidos contra o câncer da próstata. Esse fracasso, ironicamente, é a maior promessa do F77. Se funcionar teremos uma linha de ataque para medicamentos que foram desenvolvidos para atacar as células do câncer da próstata, mas não conseguiam identificá-las,nem grudar nelas.
Qual a utilidade? De acordo com a OMS, meio milhão de pessoas morrem desse câncer no mundo todos os anos e, de acordo com essa pesquisa (não são dados dela), apenas 34% dos pacientes estão vivos cinco anos depois de constatada a metástase.
A população que seria beneficiada é muito grande e muitas vidas seriam salvas, mas o destino mais provável dessa pesquisa é que não se transforme sequer em medicamento. Repetindo, a grande maioria não atinge esse estágio.
Por Gláucio Soares, baseado em vários artigos recentes.