A Migração dos Homicídios

Violência cresce nos estados do Nordeste

06/02 às 23h21 O GLOBO

Marcelo Remígio

RIO e RECIFE – Noite de 8 de
janeiro, Alexandre Diniz do Nascimento, de 31 anos, é morto com cinco
tiros no município de Bayeux, região metropolitana de João Pessoa. Ele é
mais um na estatística de assassinatos da Paraíba que, assim como o
restante do Nordeste, amarga a explosão da violência. A única exceção,
no momento, é Pernambuco. Um levantamento feito por pesquisador da
Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) aponta que, nos últimos
dez anos, os estados nordestinos enfrentam um crescimento linear do
número de assassinatos, diferentemente do Sudeste, que reduziu os
homicídios. (Leia também: Tráfico, desavenças e brigas de território
explicam aumento de homicídios no Nordeste )

Somente a Bahia registrou um
aumento de 50,72% entre 2006 e 2010, passando de 3.222 mortes anuais
para 4.856. A polícia baiana tem ainda uma corporação cujo índice de
eficiência está entre os mais baixos do país : a média é de apenas 4,6%
dos homicídios solucionados, entre fevereiro e junho de 2010.

Com 96 mil habitantes e distante
seis quilômetros da capital, Bayeux é um dos municípios paraibanos mais
violentos, com uma taxa anual de 83 homicídios por cem mil habitantes. O
limite aceitável pela Organização Mundial Saúde (OMS) é de dez mortes
por cem mil habitantes. A cidade espelha a dura realidade de crimes que
assustam a população. Entre 2001 e 2009, os homicídios cresceram 158% na
Paraíba. O levantamento feito na UFCG tem como base os dados do Sistema
de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde.

Em Alagoas, o cruzamento de
dados de mortes violentas registradas pelo Instituto Médico Legal,
polícias Civil e Militar e Secretaria estadual de Defesa Social mostram
que, em 2009, o estado somou 1.998 homicídios. Já no ano passado, o
total chegou a 2.218, um acréscimo de 11%. A estatística não inclui
casos de latrocínio – roubo seguido de morte.

- Os estados enfrentam hoje a
migração do crime. Assim como empresários se instalaram na região para
implantar atividades lícitas, criminosos de outras regiões como o
Sudeste também encontraram nos estados um amplo mercado para o que é
ilícito, como o tráfico de drogas – explica o professor da UFCG José
Maria Nóbrega, que desenvolve desde 2007 pesquisa sobre a violência no
Nordeste.

Segundo Nóbrega, estatísticas
baseadas no SIM mostram que entre 1996 e 2008 a taxa de homicídios no
Piauí subiu 203%. No ano passado, o estado registrou 204 homicídios, 10%
a mais do que em 2009, segundo a Delegacia Geral da Polícia Civil. Em
Teresina, a capital, foram 160 casos. No Ceará, chegou a 122% no mesmo
período e, no Rio Grande do Norte, 178%. Em Sergipe, o índice foi de
134%. No Maranhão, 242%. Pernambuco enquadra-se em outra realidade: em
2010 houve redução de 14% nos homicídios em relação a 2009. No entanto,
segundo Nóbrega, em Pernambuco 94,6% dos homicídios não são
investigados.

O pesquisador destaca que não há
uma uniformidade nos critérios estatísticos dos estados para a
violência e a falta de informação prejudica a formulação de políticas
públicas de segurança. Os percentuais, afirma Nóbrega, podem ser
maiores.

Na contramão do Nordeste, Rio de
Janeiro e São Paulo comemoram a redução de homicídios. Levantamento
divulgado pela Coordenadoria de Análise e Planejamento (CAP) da
Secretaria de Estado da Segurança Pública de São Paulo mostra que, em
2010, a taxa de homicídio doloso – com intenção de matar – no estado
chegou a 10,47 para cada cem mil habitantes ano. Em 1999, a taxa era de
35,27 mortes por cem mil habitantes – o total caiu de 12.818 ocorrências
para 4.320, uma redução de 70,3% no período. A taxa é menor do que a
metade do índice brasileiro de homicídios, de 24,5 para cada cem mil
habitantes ano.

Já no Rio de Janeiro, o
Instituto de Segurança Pública (ISP) divulgou que o estado encerrou 2010
com uma redução de 17,7% no total de homicídios em relação ao ano
anterior. Em 2009 foram 5.794 assassinatos, 1.025 a mais que no ano
passado. De acordo com o sociólogo Glaucio Soares, do Instituto
Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro (Iuperj), tanto o Rio quanto
São Paulo têm trabalhado políticas de segurança pública a longo prazo:

- É o padrão mais comum e requer
que políticas inteligentes sejam de estado e não deste ou daquele
governo. Em São Paulo colhemos os frutos plantados a partir de 1999. No
Rio de Janeiro, houve diversas melhorias, particularmente nos últimos
quatro anos. Nos dois casos houve transferência do poder decisório na
área de Segurança Pública e vontade política – analisa Soares, que
identifica um quadro diferente no Nordeste:

- A cultura cívica está menos
desenvolvida, há menos vontade política e padrões tradicionais no
governar. Falta treinamento policial, conhecimento e, sobretudo, uma
elite política mais consciente da importância da segurança pública.

Soares não aponta a causa mais
provável para a explosão da violência no Nordeste. No entanto, chama a
atenção para o tráfico de drogas:

- A causa mais comum no Brasil das últimas décadas tem sido a letalíssima combinação de drogas com armas de fogo.

Em Teresina, a dona de casa
Francisca Maria Almeida da Silva, de 44 anos, sentiu todas as dores do
mundo ao testemunhar a morte de seus três filhos, o estudante Felipe
Eduardo da Silva Pereira, de 19 anos, o ajudante de pedreiro Marcelo da
Silva Pereira, de 26 anos, e de Givago Lobão da Silva Pereira, o
Pachola, de 22 anos, em um intervalo de três anos. Na tarde de
quinta-feira passada, Francisca Maria participou da missa de um mês da
morte de seu filho, Givago, assassinado com oito tiros em Teresina.

- Nós estávamos tomando sorvete.
Baixei a cabeça para pegar uma sacola de compras eu vi os pés de um
homem, não o rosto. Eu disse: ‘Givago, meu filho, tem um homem com uma
arma’. Ele soltou os chinelos e saiu correndo. Eu gritei, pedi ajuda
para meu filho, mas ninguém teve coragem. Com o primeiro tiro, meu filho
caiu emborcado.

Ao analisar a queda no total de
homicídios em Pernambuco, Soares diz que houve vontade política de
combater o crime, mais conhecimento na área de segurança pública e mais
recursos. No entanto, ele afirma que ainda há muito por fazer no estado.

Na última quinta-feira, O GLOBO
encaminhou perguntas ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, sobre
a violência no país. O jornal quis saber qual seria a explicação do
governo federal para a diminuição dos homicídios no Rio de Janeiro e em
São Paulo no mesmo período em que a violência aumenta de forma
assustadora no Nordeste, inclusive em capitais com alto fluxo de
turistas. Foi perguntado também se o ministério estaria preparando
medidas especiais para ajudar os governos de alguns estados a coibir a
criminalidade. Na sexta-feira, a assessoria de imprensa disse que o
ministro não iria tecer comentários sobre o assunto.

Disponivel em: http://moglobo.globo.com/integra.asp?txtUrl=/cidades/mat/2011/02/06/violencia-cresce-nos-estados-do-nordeste-923743692.asp

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